Letreiro no campus da Universidade de Chicago. Foto: Corine Guignard

A Faculdade de Direito da Universidade de Chicago anunciou uma nova estratégia para adaptar a formação jurídica ao avanço da inteligência artificial e proibirá o uso de celulares, tablets e laptops nas disciplinas obrigatórias do primeiro ano a partir do ano acadêmico de 2026–2027.

A medida faz parte de um conjunto mais amplo de mudanças apresentado pela instituição no documento Rethinking Legal Education in the AI Era — “Repensando a educação jurídica na era da inteligência artificial”, em tradução livre —, divulgado na última quinta-feira, 9 de julho.

Considerada uma das principais faculdades de Direito dos Estados Unidos, a instituição afirma que a rápida disseminação de ferramentas de inteligência artificial exige mudanças na forma como os estudantes aprendem, são avaliados e desenvolvem habilidades consideradas essenciais para a atuação profissional.

A estratégia adotada pela universidade busca equilibrar dois objetivos: garantir que os alunos aprendam a pensar de maneira crítica, estratégica e independente, sem transferir parte do esforço intelectual para ferramentas de IA, e, ao mesmo tempo, prepará-los para utilizar essas tecnologias de forma responsável, eficaz e ética na prática jurídica.

Segundo o documento, o retorno a ambientes de aprendizagem com menos dispositivos eletrônicos não representa uma tentativa de impedir o uso da inteligência artificial. A instituição reconhece que essas ferramentas já fazem parte da atividade jurídica e que os futuros profissionais deverão estar preparados para utilizá-las.

A proposta é estabelecer momentos distintos para o desenvolvimento de competências humanas e tecnológicas ao longo da formação.

“Queremos garantir que nossos alunos aprendam a pensar por si mesmos de forma rigorosa e crítica, sem depender de atalhos proporcionados pela IA, que podem lhes dar uma resposta rápida, mas que, na verdade, retardam o processo de aprendizagem”, disse Adam Chilton, reitor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, em entrevista à CBS News.

Faculdade de Direito da Universidade de Chicago. Foto: Divulgação/Confluence

Dispositivos serão proibidos nas disciplinas obrigatórias do primeiro ano

Durante o ano acadêmico de 2026–2027, a Faculdade de Direito testará uma abordagem coordenada para as disciplinas obrigatórias do primeiro ano do curso, período considerado fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico, da escrita jurídica e da capacidade de julgamento estratégico.

Celulares, tablets, laptops e outros dispositivos eletrônicos serão proibidos nas salas de aula dessas disciplinas. A regra terá exceções limitadas, incluindo adaptações destinadas a estudantes com deficiência, atividades específicas autorizadas pelos professores e a possibilidade de designar alunos responsáveis por produzir anotações digitais para a turma.

As avaliações também serão realizadas presencialmente e sem acesso à internet, arquivos eletrônicos ou aplicativos.

De acordo com a instituição, a dependência de dispositivos para fazer anotações ou auxiliar na elaboração de respostas pode prejudicar processos de reflexão e raciocínio. A nova política também reforçará o uso do método socrático, tradicionalmente adotado pela universidade e baseado no debate, na formulação de perguntas e na participação ativa dos estudantes.

A Faculdade de Direito afirma que pretende desenvolver uma abordagem pedagógica “resiliente à IA”, baseada em formas de ensino e avaliação que valorizem o envolvimento contínuo dos alunos com o conteúdo e reduzam a possibilidade de transferência do trabalho intelectual para ferramentas tecnológicas.

A proposta, no entanto, não busca impedir todos os usos da inteligência artificial. A universidade considera que determinadas aplicações podem ampliar o esforço e o envolvimento dos estudantes, como utilizar ferramentas de IA para esclarecer conceitos durante a preparação para as aulas ou gerar exercícios para estudo.

Decisão amplia debate já iniciado em universidades brasileiras

ESPM, FGV e Insper anunciaram a proibição do uso de celulares em sala de aula para estudantes de graduação em 2026. Recorte: Divulgação/The University Journal

A iniciativa da Universidade de Chicago amplia um debate que também ganhou espaço no ensino superior brasileiro.

Conforme noticiado anteriormente pelo The University Journal, ESPM, FGV e Insper adotaram restrições ao uso de celulares durante as aulas presenciais de graduação, com o objetivo de reduzir distrações e ampliar a atenção, a participação e o envolvimento dos estudantes.

No caso da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, a restrição terá alcance maior ao incluir também laptops e tablets e estará diretamente relacionada à reformulação do ensino diante da expansão da inteligência artificial generativa.

Embora adotadas em contextos diferentes, as medidas indicam uma preocupação crescente de instituições de ensino superior com o impacto do uso contínuo de dispositivos digitais sobre a aprendizagem e com a necessidade de preservar espaços destinados à reflexão, à interação e ao desenvolvimento do pensamento independente.

Estudantes também aprenderão a utilizar inteligência artificial

Ao mesmo tempo em que restringirá dispositivos nas disciplinas fundamentais, a Faculdade de Direito ampliará o ensino sobre inteligência artificial em outras áreas do currículo.

Na disciplina de pesquisa e escrita jurídica do primeiro ano, os estudantes continuarão desenvolvendo textos sem o auxílio da IA, mas também utilizarão as ferramentas em atividades de pesquisa, revisão, aprimoramento de versões preliminares e preparação para argumentações orais.

A proposta é tratar a escrita independente como uma habilidade fundamental e, posteriormente, incorporar o uso da inteligência artificial. Os alunos deverão aprender a utilizar as ferramentas, revisar, avaliar e aperfeiçoar os conteúdos produzidos por elas.

Nas disciplinas eletivas e mais avançadas, políticas que restringem dispositivos e avaliações sem acesso à internet continuarão sendo recomendadas, mas deixarão de ser obrigatórias. Professores também serão incentivados a testar novos formatos de ensino e avaliação, incluindo apresentações orais, projetos em grupo, atividades de revisão entre estudantes, exercícios produzidos por IA e chatbots personalizados para auxiliar nos estudos.

A instituição já oferece disciplinas voltadas à relação entre inteligência artificial e Direito e criou um laboratório dedicado ao desenvolvimento de ferramentas de IA capazes de contribuir para a ampliação do acesso à Justiça.

Trabalhos acadêmicos terão defesa oral

Outra mudança anunciada envolve os trabalhos de pesquisa exigidos para a conclusão do curso.

Após a entrega de uma versão completa ou definitiva do trabalho, os estudantes deverão participar presencialmente de uma discussão oral com o professor responsável pela orientação. A atividade poderá ocorrer individualmente ou no formato de uma apresentação acadêmica.

Durante a conversa, os alunos terão de responder a perguntas sobre o raciocínio desenvolvido no trabalho e as implicações dos argumentos apresentados.

Segundo a Faculdade de Direito, a exigência permitirá avaliar a compreensão dos estudantes em um ambiente no qual não poderão recorrer à tecnologia, sem eliminar o processo de pesquisa e escrita independente realizado ao longo de semanas ou meses.

A instituição também considera que a mudança contribuirá para desenvolver competências utilizadas na atuação jurídica, já que advogados precisam explicar e defender ideias em tempo real durante julgamentos, negociações, reuniões com clientes e trabalhos realizados em conjunto com outros profissionais.

Formação priorizará habilidades consideradas “essencialmente humanas”

A estratégia da Universidade de Chicago está estruturada em três pilares: desenvolver formas de ensino e avaliação resistentes à transferência do trabalho intelectual para a IA; ampliar habilidades consideradas essencialmente humanas; e ensinar o uso responsável, eficaz e ético das novas tecnologias.

Embora reconheça que a inteligência artificial deverá transformar diferentes atividades jurídicas, a instituição avalia que competências como argumentação oral, pensamento crítico, julgamento estratégico e construção de relações com clientes e outras partes continuarão dependendo da atuação humana.

As clínicas jurídicas também fazem parte da nova estratégia. Os estudantes utilizarão ferramentas de inteligência artificial em casos e atividades reais, sob a supervisão de professores, ao mesmo tempo em que continuarão desenvolvendo competências relacionadas ao contato com clientes, à elaboração de estratégias e à atuação perante tribunais e outras instituições.

A Faculdade de Direito afirmou ainda que suas políticas serão revisadas periodicamente diante da velocidade das mudanças tecnológicas. As regras de cada disciplina deverão ser apresentadas de forma explícita nos programas dos cursos e explicadas aos estudantes pelos professores.

Para a instituição, nenhuma estratégia relacionada à inteligência artificial pode ser considerada definitiva. A proposta é preparar os estudantes para aprender e atuar “com, sem e sobre a IA”, preservando o desenvolvimento do pensamento independente enquanto incorpora tecnologias que já começam a transformar a prática jurídica.

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