País acelera criação de formações ligadas à inteligência artificial, robótica e tecnologias estratégicas enquanto reduz programas considerados desatualizados

Universidade na China. Foto: Reprodução/Pexels

A China está promovendo uma das maiores reestruturações de seu ensino superior das últimas décadas. Entre 2021 e 2025, universidades do país encerraram ou suspenderam 12.200 ofertas de cursos de graduação, enquanto aproximadamente 10.200 novos programas foram criados. O movimento atingiu mais de 30% das ofertas de graduação chinesas no período e tem como um de seus principais objetivos aproximar as universidades das novas demandas do mercado de trabalho e das prioridades tecnológicas do país.

Os números foram divulgados pelo Ministério da Educação da China e repercutidos pelo South China Morning Post. Segundo o jornal, a reorganização ocorre em meio à tentativa chinesa de ampliar sua força de trabalho em setores considerados estratégicos, ao mesmo tempo em que o país enfrenta dificuldades para absorver o crescente número de graduados.

A mudança não significa apenas a redução de cursos. O processo combina cancelamento, suspensão, fusão e reformulação de programas existentes com a criação de novas formações, muitas delas relacionadas à inteligência artificial e a outras tecnologias consideradas estratégicas por Pequim.

De cursos tradicionais a formações em inteligência artificial

De acordo com o Ministério da Educação chinês, somente na rodada de reorganização referente a 2024, anunciada em abril de 2025, foram aprovados 1.839 novos programas de graduação. Ao mesmo tempo, 2.220 tiveram suas matrículas suspensas e 1.428 foram oficialmente cancelados. Outros 157 programas tiveram alterações na categoria do diploma ou na duração dos estudos.

Na mesma atualização, o Ministério apresentou uma nova versão do catálogo nacional de cursos de graduação, com 845 programas específicos. Foram adicionadas 29 novas formações, incluindo áreas relacionadas à neutralidade de carbono, tecnologia marítima, equipamentos médicos, engenharia molecular inteligente, informação espaço-temporal e aplicações de inteligência artificial.

Entre os novos cursos estão ainda programas voltados à aplicação de IA na educação, à engenharia audiovisual inteligente e ao drama digital.

Em reunião nacional realizada em abril de 2025, o Ministério da Educação afirmou que a reorganização das disciplinas deveria aproximar o ensino superior das prioridades nacionais, das tecnologias emergentes e das necessidades do mercado de trabalho. O órgão também defendeu a eliminação de cursos considerados obsoletos e uma maior integração da inteligência artificial aos currículos.

O caso que chamou atenção: Communication University of China

Um dos exemplos mais simbólicos da transformação ocorre na Communication University of China (CUC), uma das principais instituições chinesas nas áreas de comunicação, mídia e artes.

Campus da Communication University of China (CUC). Foto: Divulgação/Study in China

A universidade passou por uma ampla reorganização de seus programas, incluindo cursos e especializações relacionados a fotografia, histórias em quadrinhos, design de comunicação visual, arte de novas mídias, moda e tradução.

De acordo com o Rest of World, a universidade eliminou cinco especializações ligadas às artes — entre elas fotografia, quadrinhos e design de comunicação visual — enquanto criou novas formações que incorporam inteligência artificial, como Intelligent Imaging Art.

O movimento ganhou repercussão justamente porque a CUC é uma instituição especializada em áreas que estão sendo profundamente transformadas pela IA generativa.

O Sixth Tone informou que dirigentes da universidade justificaram parte da reorganização pela chegada de uma era de cooperação entre humanos e máquinas. Segundo a publicação, a instituição argumentou que algumas formações precisariam ser repensadas diante das novas tecnologias.

A reformulação não deve ser interpretada simplesmente como o desaparecimento da fotografia como área de conhecimento. O curso foi incorporado a uma formação mais ampla relacionada à produção audiovisual, em uma tentativa de combinar fotografia, vídeo e outras competências.

A inteligência artificial não é a única explicação

Apesar de a IA ocupar a principal posição no debate, seria simplista afirmar que os 12.200 cursos foram eliminados exclusivamente por causa da inteligência artificial.

A reorganização também responde a mudanças demográficas, à evolução da estrutura econômica chinesa, à demanda por determinadas profissões e ao problema de empregabilidade dos recém-formados.

O South China Morning Post destaca que a reforma ocorre em um contexto de dificuldades para a absorção dos milhões de jovens que entram no mercado de trabalho todos os anos.

O próprio Ministério da Educação chinês afirma que as universidades devem realizar previsões de demanda por profissionais e utilizar essas informações para otimizar seus programas de graduação. Atualmente, segundo o órgão, existem cerca de 62.800 programas de graduação no país.

E as áreas de humanas?

Relatórios recentes mostram que cursos de artes, idiomas, tradução, comunicação e algumas áreas de ciências humanas estão entre os mais afetados pelas mudanças.

O Le Monde relatou que universidades chinesas vêm reduzindo ou reformulando cursos tradicionais de humanidades, artes criativas e línguas estrangeiras, enquanto ampliam programas relacionados a robótica, semicondutores, economia digital e inteligência incorporada (embodied intelligence). Na Communication University of China, por exemplo, a tradução foi uma das áreas atingidas pela reorganização.

O novo modelo: menos cursos isolados, mais interdisciplinaridade

Uma das características mais interessantes da reforma chinesa é justamente a tentativa de aproximar diferentes áreas. Em vez de simplesmente substituir uma graduação tradicional por outra completamente diferente, algumas universidades estão criando cursos que combinam conhecimento especializado e tecnologia.

A própria política do Ministério da Educação destaca a importância da integração interdisciplinar, da inovação e da incorporação de inteligência artificial ao ensino. Na prática, isso pode significar um curso de comunicação que incorpora IA generativa, um programa de design que inclui ferramentas computacionais ou uma formação audiovisual que combina produção tradicional com sistemas inteligentes.

A ideia é que o profissional não precise necessariamente abandonar sua área de origem para trabalhar com tecnologia. Ele precisa aprender a trabalhar com a tecnologia dentro de sua própria área.

Uma reforma também motivada pelo projeto econômico chinês

O Ministério da Educação afirmou em 2025 que a reorganização das disciplinas deveria ajudar a solucionar descompassos entre formação e demanda por profissionais, além de fortalecer a competitividade científica e tecnológica da China.

Isso ajuda a explicar por que determinadas áreas estão recebendo atenção especial.

Entre os novos programas aparecem formações ligadas a:

  • Inteligência artificial;
  • Robótica;
  • Circuitos integrados e semicondutores;
  • Economia digital;
  • Engenharia de equipamentos médicos;
  • Tecnologia marítima;
  • Neutralidade de carbono;
  • Tecnologia de baixa altitude;
  • Engenharia audiovisual inteligente;
  • Tecnologias que combinam inteligência artificial com outras áreas.

O que isso significa para o futuro das universidades?

Durante décadas, universidades puderam trabalhar com estruturas relativamente estáveis. Um curso criado há décadas poderia continuar sendo oferecido por gerações, com mudanças graduais em sua grade curricular. A inteligência artificial e outras tecnologias emergentes colocam esse modelo sob pressão.

Uma tecnologia pode transformar determinadas atividades profissionais em poucos anos, enquanto a criação ou reformulação de uma graduação pode levar muito mais tempo. A China está tentando reduzir essa diferença por meio de uma política deliberada de revisão permanente do portfólio universitário.

Em vez de considerar os cursos como estruturas permanentes, o governo chinês passou a tratá-los cada vez mais como instrumentos que precisam acompanhar as transformações econômicas e tecnológicas. Isso cria, porém, um dilema.

Se universidades eliminarem rapidamente áreas cuja demanda profissional caiu, podem correr o risco de reduzir a diversidade acadêmica e abandonar conhecimentos cujo valor não pode ser medido apenas pela demanda imediata do mercado.

Por outro lado, manter indefinidamente cursos que não encontram demanda pode significar formar milhares de estudantes para um mercado que já não existe da mesma maneira.

A pergunta que fica para o Brasil

A experiência chinesa dificilmente pode ser simplesmente importada para o Brasil. Os sistemas universitários, as estruturas econômicas e as políticas educacionais dos dois países são muito diferentes.

Mas o fenômeno traz uma pergunta que universidades brasileiras também terão de enfrentar: quanto tempo uma graduação pode permanecer igual em um mercado de trabalho que está mudando tão rapidamente?

A discussão não precisa ser sobre acabar com cursos de humanas, comunicação ou até mesmo administração. Pode ser sobre outra coisa: o que um estudante precisa aprender dentro de cada uma dessas áreas para continuar relevante em um mercado de trabalho profundamente transformado pela inteligência artificial?

O movimento não representa necessariamente o fim das profissões tradicionais. Representa, porém, uma mudança importante na forma como um dos maiores sistemas universitários do mundo responde à transformação tecnológica: quando a economia muda, a China quer que suas universidades mudem junto.

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