Posição exige experiência em inteligência artificial, programação, arquitetura de sistemas e implementação de soluções em empresas; especialista do Insper avalia como a formação universitária acompanha a transformação do mercado

A expansão da inteligência artificial começa a produzir mudanças não apenas na forma como empresas trabalham, mas também no perfil dos profissionais que o mercado busca. Um exemplo está em uma nova vaga aberta pela OpenAI para seu escritório em São Paulo: a empresa procura um Engenheiro de IA, com remuneração anual entre R$675 mil e R$750 mil, além de participação acionária (equity). O valor corresponde a aproximadamente R$62,5 mil por mês, considerando a divisão da remuneração anual em 12 meses.
Os requisitos da posição ajudam a ilustrar uma transformação em curso no mercado de tecnologia. A vaga não procura apenas um profissional capaz de desenvolver modelos de inteligência artificial. A função envolve trabalhar diretamente com empresas, identificar oportunidades de aplicação da tecnologia, desenvolver arquiteturas, construir protótipos, avaliar sistemas e levar soluções de IA para ambientes de produção.
Na prática, o profissional também deverá lidar com aspectos como confiabilidade, segurança, privacidade, governança, custos, desempenho e integração entre diferentes sistemas. A descrição ainda exige domínio avançado de Python e experiência na construção e implementação de sistemas de IA ou machine learning.
A nova engenharia por trás da inteligência artificial
Em entrevista ao The University Journal, Fabio De Miranda, coordenador dos cursos de Engenharia de Computação e Ciência da Computação do Insper, diz que a posição representa uma transformação recente no mercado de tecnologia.
“Essa vaga da OpenAI é bem emblemática do momento que estamos vivendo. A posição de engenheiro de IA ganhou grande proeminência nos últimos dois anos. Depois que a IA ‘aprende’, existe toda uma engenharia para que o serviço se mantenha no ar.”, diz

Segundo o coordenador, a expansão desse tipo de carreira acompanha também uma disputa internacional por profissionais qualificados em Computação e inteligência artificial. Ele observa que talentos da área têm migrado para funções relacionadas a IA nas principais economias.
“Nas principais economias, muitos dos melhores talentos de Computação estão migrando para IA. Nos EUA, não é incomum ver salários na faixa de US$ 400 mil por ano para PhDs em Machine Learning.”
A própria vaga da OpenAI evidencia, porém, que a fronteira entre inteligência artificial e engenharia de software está cada vez menos definida. Entre as atribuições estão construir sistemas, escrever e depurar código, desenvolver ferramentas de avaliação, solucionar integrações complexas e transformar protótipos em sistemas confiáveis utilizados por empresas.
Para Miranda, esse movimento também cria novas funções dentro do ecossistema de IA.
“O mercado está vendo o surgimento de novas carreiras, entre elas a de Forward Deployed Engineer in AI. São profissionais que precisam combinar profundidade técnica com a capacidade de implementar soluções em ambientes reais.”
Por que a OpenAI está ampliando sua presença no Brasil?
A abertura da posição ocorre em um momento de expansão da atuação da OpenAI no país. Em agosto, a empresa anunciou o início de suas operações comerciais no Brasil, com sede em São Paulo e uma equipe voltada à atuação com empresas, desenvolvedores, pesquisadores e instituições públicas.
Segundo dados divulgados pela própria companhia, o Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT em número de usuários ativos semanais. O número de usuários no país quase dobrou no último ano e os brasileiros enviam atualmente cerca de 215 milhões de mensagens ao ChatGPT por dia.
O movimento também aparece entre desenvolvedores. O Brasil ocupa, segundo a OpenAI, a segunda posição mundial em número de desenvolvedores que utilizam sua API e é o maior mercado do Codex na América Latina. É nesse contexto que a contratação de profissionais capazes de implementar IA em empresas ganha relevância.
Como as graduações em Computação estão reagindo
Nas universidades e cursos de tecnologia, a mudança coloca uma questão: como preparar hoje um estudante para um mercado que continuará se transformando ao longo dos próximos anos?
Para Miranda, a resposta passa pela atualização dos currículos de graduação e pela aproximação entre fundamentos tradicionais da Computação e as novas tecnologias de inteligência artificial.
No Insper, segundo o coordenador, os cursos passaram recentemente por reformulações para incorporar disciplinas de IA às diferentes engenharias, além de disciplinas curriculares e eletivas relacionadas a Machine Learning, LLMs, DevOps e MLOps.
“As faculdades mais sintonizadas com essas mudanças já se movimentaram. No Insper, os cursos foram recentemente reformulados para que todas as engenharias tenham disciplinas de IA, com matérias curriculares e eletivas voltadas a Machine Learning, LLMs, DevOps e MLOps.”
Miranda, entretanto, aponta que a velocidade de adaptação não é uniforme entre as instituições.
“O que se observa no mercado é que os programas de pós-graduação, em geral, se adaptam mais rápido. Ainda é comum encontrar graduações que não fizeram movimentos significativos para formar profissionais para essa nova onda”, conclui.
A formação para o mercado de IA
A vaga da OpenAI oferece, nesse sentido, um retrato de uma tendência mais ampla: conforme ferramentas de inteligência artificial se tornam parte das operações das empresas, cresce a necessidade de profissionais capazes de integrar tecnologia, engenharia e negócios.
Isso não significa necessariamente que todas as carreiras de Computação serão substituídas por novas graduações em inteligência artificial. A própria posição aberta em São Paulo reúne conhecimentos tradicionalmente associados à Engenharia de Computação e à Ciência da Computação — programação, arquitetura, sistemas e infraestrutura — com competências mais recentes relacionadas a modelos, agentes, avaliação e implementação de IA.
Para quem está entrando agora em uma graduação de Computação, portanto, a questão pode ser menos sobre escolher entre Computação e IA e mais sobre construir uma formação capaz de acompanhar a evolução das duas áreas.
A vaga da OpenAI em São Paulo deve ser vista, portanto, como um “termômetro” de quais competências estão sendo valorizadas na fronteira entre IA, engenharia e negócios, além de colocar para as universidades o desafio de preparar os profissionais que ocuparão essas posições nos próximos anos.





