Um curta-metragem desenvolvido por um estudante do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo integrou a programação oficial da 78ª edição do Festival de Cannes, um dos eventos mais relevantes do cinema mundial. Santo Ofício, dirigido e roteirizado por Gustavo Paixão, foi selecionado para o SFC | Rendez-vous Industry, iniciativa voltada ao mercado cinematográfico internacional dentro do Marché du Film, espaço que reúne profissionais, produtores e tomadores de decisão da indústria audiovisual.

Estudante do sétimo semestre do curso de Cinema e Audiovisual, Gustavo Paixão desenvolveu o curta como parte de um Projeto Integrador Multidisciplinar (PIM), atividade acadêmica recorrente na graduação. A produção contou com apoio institucional da Belas Artes, incluindo o uso de equipamentos e estúdios para gravação de ADR, além de envolver majoritariamente alunos da própria universidade: cerca de 200 estudantes integram os créditos do filme. Após a primeira exibição no Festival Belas Artes, a equipe passou a conduzir de forma independente a circulação e distribuição da obra em mostras e festivais.
A seleção para Cannes garantiu ao diretor credencial oficial do festival e acesso ao Palais des Festivals, onde ocorrem as principais atividades do evento. Além da exibição do curta, a participação incluiu rodadas de apresentação para prospecção de parceiros internacionais, encontros com profissionais da indústria e contatos com a imprensa estrangeira. O projeto também foi apresentado como embrião de um futuro longa-metragem, ampliando o alcance da obra para além do circuito estudantil. Durante o evento, o diretor participou ainda de encontros institucionais, entre eles uma agenda com a ministra da Cultura, Margareth Menezes.
Com dez minutos de duração, Santo Ofício é um drama ambientado em um colégio e aborda o racismo estrutural a partir da trajetória de Vinicius, um adolescente negro apaixonado por futebol que enfrenta discriminação cotidiana e a omissão das autoridades escolares. A narrativa é construída como uma alegoria inspirada nos episódios recentes de racismo sofridos pelo jogador Vinicius Jr. no futebol europeu. Ao transpor a violência simbólica dos estádios para o ambiente educacional, o filme busca tornar mais didática a discussão sobre responsabilidade institucional e as formas de enfrentamento ao preconceito.
Segundo o diretor, o roteiro passou por diversas versões, sempre com a intenção de provocar reflexões sobre como indivíduos e instituições lidam com o racismo no cotidiano. Desde o lançamento, o curta vem sendo utilizado como material de apoio em escolas e universidades no Brasil e em outros países, ampliando seu impacto para além do circuito de festivais.

Apesar da curta idade, Gustavo Paixão acumula uma trajetória promissora no audiovisual. Exibiu seu primeiro trabalho em sala de cinema ainda aos 16 anos e, aos 18, tornou-se um dos diretores mais jovens a integrar o catálogo do Globoplay. A entrada na Belas Artes, em 2022, marcou, segundo ele, um período de amadurecimento estético e teórico, com contato direto com professores, críticos e novos públicos. O diretor também integrou equipes de produções para plataformas de streaming e festivais nacionais e internacionais, incluindo passagens pelo Festival de Gramado e pelo Encontro Internacional de Cinema no Rio de Janeiro.
Atualmente, Santo Ofício segue em circulação por mostras no Brasil e no exterior, com previsão de ser disponibilizado gratuitamente ao público após o encerramento do circuito de festivais. A experiência em Cannes, avalia o diretor, reforça o papel da formação universitária como espaço de experimentação e inserção profissional, além de evidenciar o potencial da produção acadêmica brasileira em diálogos internacionais.




