Duas das mais renomadas instituições de ensino superior privadas do Brasil — Insper e Fundação Getulio Vargas (FGV) — oficializaram mudanças importantes em seus processos seletivos. Ambas anunciaram o fim da tradicional segunda fase oral em seus vestibulares, marcando uma reestruturação na forma como avaliam os candidatos.

O fim de um modelo

No Insper, o processo seletivo vinha se destacando por uma abordagem única entre as universidades brasileiras: uma segunda fase oral composta por três etapas — o Desafio de Design, a Dinâmica em Grupo (Debate) e a Arguição Oral. Essas atividades tinham como objetivo avaliar habilidades socioemocionais como Comunicação Assertiva, Pensamento Crítico, Interação com Pessoas e Aprender a Aprender. Agora, com o novo modelo anunciado no dia 24 de fevereiro, o vestibular do Insper passará a ser realizado em fase única.

Campus do Insper na Vila Olímpia (“Prédio Quatá 200”). Imagem: Insper – Divulgação

A nova estrutura contará com provas digitais presenciais em dez cidades brasileiras, divididas por área de interesse: Ciências Humanas, Linguagens e Matemática para candidatos aos cursos de Administração, Economia e Direito, e Ciências da Natureza, Linguagens e Matemática para os candidatos aos cursos de Engenharia e Ciência da Computação. Todos os candidatos também realizarão uma prova de redação em papel.

Segundo a diretora de graduação do Insper, Priscila Claro, a mudança é fruto de um estudo detalhado sobre o perfil da juventude atual e as exigências do futuro do trabalho. “Priorizamos acompanhar essas competências ao longo da formação dos alunos, possibilitando o desenvolvimento contínuo dos estudantes. Assim, passamos a usar as habilidades socioemocionais para medir e desenvolver nossos alunos em vez de medir e selecionar candidatos”, afirmou.

Além do vestibular tradicional, o Insper seguirá oferecendo alternativas de ingresso por meio do ENEM, SAT, IB Diploma e Seleção Olímpica, esta última voltada para alunos com destaque em olimpíadas científicas durante o Ensino Médio.

Mudança também na FGV

Já a FGV São Paulo, tradicional por seu processo seletivo para o curso de Administração de Empresas (EAESP), também revisou sua metodologia. A instituição, que realizava uma entrevista presencial com os candidatos aprovados na primeira fase, decidiu transformá-la em uma prova discursiva.

Campus da FGV EAESP na Bela Vista. Imagem: FGV – Divulgação

Segundo o novo edital divulgado nesta sexta-feira, 4, a segunda fase será composta por uma única etapa realizada em um único dia, com questões abertas de Matemática e a Redação. A mudança visa tornar o processo mais técnico e objetivo, deslocando o foco da subjetividade da entrevista para o desempenho analítico e argumentativo do candidato.

Motivações e impacto

A decisão das duas instituições não passou despercebida pelos cursinhos preparatórios. Segundo o fundador de um desses cursinhos, ouvido sob condição de anonimato pelo University Journal, há um movimento por parte das faculdades em elevar o nível dos ingressantes: “As instituições estão fazendo isso porque sentiram que é necessário aumentar o nível dos ingressantes na graduação, e essa é uma das formas que estão buscando para realizar uma nova filtragem dos candidatos”, afirmou.

Apesar disso, o especialista pondera que ainda é cedo para avaliar os impactos concretos das mudanças. “Não sabemos se surtirá o efeito desejado. Isso é algo a ser analisado a médio e longo prazo.”

Enquanto Insper e FGV deixam para trás a abordagem oral que por anos definiu seus processos seletivos, permanece a expectativa sobre como essas mudanças afetarão o perfil dos estudantes aprovados e, principalmente, como essas instituições continuarão promovendo o desenvolvimento de habilidades socioemocionais — agora, não mais como critério de entrada, mas como parte integrante da formação acadêmica.

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